Podcast Perrengue #1: entrevista com Manuela Bordasch e Arthru Chini, sócios do Steal The Look

"Encontre um trabalho que ame, e não terá que trabalhar um dia sequer." Será? Sempre discordei dessa frase e decidi entrevistar gente bem-sucedida em diferentes áreas, para descobrir o lado B de suas carreiras. Por trás do sucesso (dos posts e dos likes) do Steal The Look, site de moda e beleza com conteúdo comprável, há muito trabalho e alguns perrengues. O sócios Manueal Bordasch e Arthur Chini me receberam em seu HQ, no Itaim, em São Paulo, para falar disso.

Dá um play!


Hannah Horvath, a jornada da escritora

Hannah Horvath: a jornada da escritora.

A season finale de Girls ainda não acabou, mas o final feliz de Hannah Horvath está garantido. Ela recebeu da editora, no primeiro episódio dessa temporada, o e-mail pelo qual esperou desde que a conhecemos: “Estamos felizes em publicar seu livro”. Foi por esse livro (e todos os outros que tentou lançar antes ou ainda vai escrever no futuro) que Hannah se mudou para Nova York. Depois do triste legado de Sex and the City, com quatro mulheres que viviam em função de correr atrás de homens e de sapatos, ainda tendemos a pensar que o mais importante, em qualquer série, são as relações das personagens com os namorados. Mas olhando direito, o grande amor de Hannah sempre foi sua escrita.

Um amor, assim, doloroso. Antes do e-mail que a levou a abrir um sorriso em close que preencheu toda a tela da minha TV, Hannah sentiu inveja de outras autoras. Falou de seu processo criativo com o psicanalista. Teve crises de ansiedade e TOC, porque não conseguia cumprir um deadline (e já havia gastado o adiantamento). Terminou um namoro, porque o cara achava seu livro sem graça. Abriu mão de um emprego bom (e com comida gratuita) na redação da GQ, por medo de não ter mais tempo de escrever. Ela teve um e-book cancelado, porque seu editor morreu de repente. Não conseguiu levar esse título para outra editora interessada, pois estava amarrada a um contrato. Matriculou-se numa pós graduação de escrita criativa. Desistiu do curso. Também desistiu de ser escritora algumas vezes. Voltou atrás, em todas elas.

Há uns anos, Hannah deu um original para seus pais lerem e alertou: “Acho que posso ser a voz da minha geração”. A coleção de rejeições no caminho para se tornar escritora não foi capaz de fazer com que ela abrisse mão do sonho, mas serviu para mudá-la e (já era tempo) readequar suas ambições. Agora, Hannah está contente apenas em ter sua própria voz (o que não é pouco). “Eu sou uma escritora e (...) tenho a obrigação de falar de coisas que são significativas para mim.”

As comparações entre Girls e Sex and the City foram muitas, desde o início. Duas séries que têm uma escritora como personagem principal vivendo, com suas três melhores amigas, em Nova York. Carrie Bradshaw era famosa, com anúncios de seus livros e colunas colados em ônibus e estampados em páginas de revistas, sem nunca ter passado por um bloqueio criativo (algo mais inverossímil do que a vida de luxo que ela sustentava com o salário de jornalista freelancer). Hannah é só uma promessa, a série vai terminar sem sabermos se ela vai vingar no mercado editorial (ou deixar sua marca na cidade, outra de suas metas). Mas já sabemos que ela é das boas. Seus pares sabem, seus professores sabem e, mesmo ficando meio confusa às vezes, ela sabe também. Aliás, é sua única certeza. Sobre como se vê daqui a cinco anos, Hannah responde: “Eu quero escrever. Escrever para que as pessoas se sintam menos solitárias do que eu me sentia. Para que as pessoas riam do que é doloroso na vida”. Hannah é a mais egoísta de uma série cheia de personagens extremamente autocentrados. Mas, quando se trata da escrita, ela parece ser, olha só, capaz de alguma generosidade. Acho que é o que um grande amor é capaz de fazer com alguém.


Se pudesse fazer qualquer coisa, o que você faria agora?

As respostas que entram em minha urna são tão simples e parecidas, em cidades bem diferentes.

O que você faria agora?
Se pudesse fazer qualquer coisa, o que você faria agora?

Tão normal deixar os nossos desejos para depois, como se tivéssemos certeza de que vai dar tempo de fazer tudo. Embora o agora seja tudo o que temos, nós parecemos nem notar que ele existe, presos entre a nossa noção de ontem e de amanhã. Foi pensando no desejo adiado de cada dia, que eu resolvi parar e perguntar estranhos no meio da rua: “Se pudesse fazer qualquer coisa, o que você faria agora?”.

A urna ajuda a garantir o anonimato das respostas (e a impedir que as pessoas me achem louca)
A urna mantém o anonimato das respostas -- e ajuda as pessoas a me darem mais atenção.
em Paraty, as respostas foram parecidas com as de Ouro Preto, Rio ou São Paulo.

Para as pessoas não se assustarem muito e dar um ar mais profissional à coisa, eu incluí, entre mim e as pessoas que ouvem minha pergunta, uma urna amarela. Peço para cada um escrever seu desejo e colocar na urna. No fim das contas, pareceu ser uma boa ideia, porque tem gente que prefere escrever e depositar o papelzinho, sem me contar nada. Eu só peço para colocarem o primeiro nome e a idade, mas o anonimato é garantido, para quem quiser.

A maior parte das respostas têm a ver com rever entes queridos, viajar e fazer sexo.
A maior parte das respostas têm a ver com rever entes queridos, viajar e fazer sexo.

Em Tel Aviv ou BethLehem, no Rio ou em São Paulo, em Paraty e Ouro Preto, as respostas que recebi, até agora, são surpreeendemente simples. Ninguém respondeu “quero ganhar na mega sena”. Em contrapartida, muita gente escreveu que quer ver alguém querido. 

As respostas são muito parecidas, em BeitLehem, na Cisjordânia, ou na cidade mais cospolita de israel, Tel Aviv
Ninguém nunca me respondeu que queria ganhar na loteria ou algo ligado diretamente a ter mais dinheiro.

Não tenho um objetivo real oficial com essa minha intervenção urbana, se não saciar um pouquinho minha curiosidade sobre o que passa na cabeça das pessoas e o que elas desejam. Quem sabe, até dar uma ajudinha para que elas prestem mais atenção ao agora. Esse instante que é todo nosso e que passa tão rápido.

"Fazer amor."
"Fazer amor."
"Pegar um voo para a ìndia e visitar meu irmão."
"Pegar um voo para a ìndia e visitar meu irmão."

O que descobri é que, basicamente, as pessoas querem estar com outras pessoas, visitando parentes, viajando, fazendo sexo. Sigo fazendo essa pergunta por aí. Cada vez mais fascinada pelas pessoas, o quanto elas e seus simples desejos são mais parecidos do que diferentes, independentemente do lugar em que se encontram comigo e minha urna amarela.

 

 

 

Estou convencida de que somos todos muito mais parecidos do que julgamos.
Estou convencida de que somos todos muito mais parecidos do que julgamos.

A gente esquece sem saber como

sabrina abreu a gente esquece (2)

A gente esquece, mas demora.

A gente esquece, mas não é agora. Porque ainda faltam duas juras de nunca mais e três ou quatro recaídas.

A gente tenta esquecer, fazendo aula de aquarela, de bateria, de krav magá. E no fim da aula, a gente lembra.

A gente esqueceria mais facilmente, se não existisse essa música maldita pra atrapalhar.

Antes de esquecer, às vezes, a gente chora e limpa a meleca na calça de pijama.

Quando a gente pensa que esqueceu, vê um filme triste e pensa que vai morrer.

Mas a gente não morre, não. A gente esquece.

A gente esquece quando se distrai, esperando no sinal vermelho, esquentando o almoço, escolhendo um shampoo novo.

Primeiro a gente esquece por horas, depois por dias.

A gente quer esquecer pra sempre, mas não vai ser hoje.

A gente esquece e não sabe como. Por isso é tão difícil sempre na próxima vez.


Lennon e Sartre: os homens que amavam as mulheres

Yoko Ono e Simone de Beauvoir são maravilhosas por elas mesmas, por suas próprias mentes e trajetórias. Mas não foi nada mal o fato de terem sido intelectualmente admiradas por seus famosos parceiros.  Ao valorizar o pensamento e a carreira de Yoko e Simone, Lennon e Sartre não amaram apenas suas mulheres, mas, nelas, todas as outras que acreditam numa parceria de coração e de cérebro. 

John Lennon nasceu numa família da classe trabalhadora de Liverpool, mas consguiu tornar seu sobrenome um dos mais famosos da Inglaterra e do mundo, em sua época e para sempre. Aos 29 anos, ele se casou formalmente com a artista plástica vanguardista Yoko Ono e adotou "Ono" ao fim da própria assinatura, a partir daquele dia. 


John Lennon já era John Lennon quando se apaixonou por Yoko. Um mito.  Yoko, claro, também  já era ela mesma e tinha 32 anos.  Ele logo percebeu que, apesar de menos famosa, ela não era menos que ele em qualquer outro quesito. Foi ao ler a palavra "sim", numa instalação de Yoko, dentro de uma galeria londrina, que o músico se interessou por ela como mulher pela primeira vez. A mulher e a artista foram indissociáveis, para ele, desde o princípio. Não havia nada a fazer, se não valorizar as obras e a trajetória que tinham feito com que ela se tornasse exatamente quem era, no momento daquele encontro que mudaria a vida dos dois. Os filmes experimentais que ela gravou, a banda experimental de que fez parte, o livro experimental que publicou (haja experimentação).


O público não reagiu bem ao relacionamento. Achavam Yoko pouco para o astro. Nos jornais,  diziam que era feia. Ele respondia que os dois eram um só ( igualmente bonitos ou feios, de acordo com quem olhasse, mas, para ele, essencialmente iguais).  Visivelmente,  se tornou mais parecido com ela, preocupado com a paz do mundo e as causas sociais. E indo mais fundo na experimentação, como aconteceu com a banda que dividiram, depois de ele deixar de fazer parte do grupo musical mais importante da história. A John Lennon/Plastic Ono Band sucedeu os Beatles e, nela como na vida, o sobrenome Lennon e Yoko estavam lado a lado, com o mesmo peso. 

*****

Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir eram parceiros de trabalho, de amor e --  talvez, mais importante que tudo --  de viagens. Eles correram o mundo, do Egito ao Brasil, com curiosidade genuína pela  sociedade de cada país visitado, fazendo conexões dentro e fora das universidades onde eram chamados a ensinar. Em suas memórias, Simone descreve esses passeios como viagens de exploração, algo exóticas, tanto divertidas quanto cansativas. Para descansar, o casal preferia o interior da Itália, para onde retornavam quase todos os anos. Num deles, a novidade foi o fato de ela ter, finalmente, aprendido a dirigir.


Mesmo admitindo ser uma péssima motorista, Simone quis se arriscar (e arriscar Sartre, sentando no banco do passageiro) pelas estradinhas, onde carros voavam e motoristas faziam questão de ultrapassá-la, especialmente ao perceber de que se tratava de uma mulher ao volante. Ela ficou preocupada com a situação, o risco de bater e, principalmente, com a opinião do companheiro. Mas, em vez de pedir a ela que diminuísse, Sartre incentivou Simone a voar pelas curvas, forçando os carros que tinham feito ultrapassagens a permitir que ela voltasse a estar na frente. "Se tivesse cedido a essas exortações, teríamos morrido cem vezes, mas eu preferia esse zelo a conselhos de prudência", ela escreveu sem esconder a felicidade, muito tempo depois, no livro  A Força das Coisas. 


Sartre, assim com John, mais famoso que sua mulher em seu tempo, nunca deu valor a esse detalhe e a viu como um par. Igualmente brilhante. E, naquela estradinha, onde ele dizia "vá, ultrapasse" -- palavras que ela reproduziu tanto tempo depois, certamente, por tê-las julgado importantes -- ele reconheceu Simone também como uma motorista em pé de igualdade com todos os motoristas homens do mundo. Pode parecer só um conselho irresponsável, dito numa estrada perigosa, mas é uma prova de amor. 

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 Como a vida não é um filme da Disney, os relacionamentos de John e Yoko ou de Sartre e Simone não foram perfeitos. John traiu Yoko com  sua assitente May Pang, e o casal ficou separado durante dois anos -- ele pediu para reatarem, mas ela demorou a aceitá-lo de volta. Sartre e Simone mantinham um relacionamento aberto e nunca moraram juntos, mas, em suas memórias, ela admite ter sentido ciúmes dele com outras mulheres, mesmo que ela também tenha tido relacionamentos paralelos, ao longo do tempo em que permaneceram juntos.

Já que a vida -- ainda bem -- não é nada parecida com um desenho animado, Yoko e Simone relembraram, cada uma, o homem de sua vida, de modo muito simples, apesar de eles terem sido dois dos nomes mais extraordinários de todos os tempos. Por causa de John, Yoko conheceu muita gente e muitos lugares. Mas, quando se lembra dele, ela escreve sobre os cafés da manhã que compartilharam e das caminhadas no Central Park, num dia bonito. Simone foi mais longe. Depois de perder Sartre, ela escreveu um livro sobre os dois, A Cerimônia do Adeus, no qual contou sobre o acirramento da fragilidade física dele -- cegueira, incontinência intestinal, o cansaço constante -- e, ao tocar nesse assunto, não lamenta nada além do fato de ele se sentir desconfortável em não poder mais, por exemplo, ir ao cinema. Para ela, a companhia de Sartre era agradável, e os problemas de saúde não interferiram nisso. Foi agradável até o fim.

Mais sobre estas histórias de amor, no filme e no vídeo abaixo;

"Lennon and Yoko on Love": 

A animação é feita em cima das respostas do casal, 

em entrevistas feitas por Howard Smith entre 1969 e 1972.

"A Cerimônia do Adeus": 

Um dos meus livros preferidos. Nele, Simone escreve as memórias da sua vida 

com Sartre, do início até a morte dele. O apêndice traz a a entrevista em que ele

responde as mais diversas perguntas dela, e é uma oportunidade a mais de espiar

a intimidade de dois gênios. (Para ler com a caixa de lenços do lado.)